
Eu não pedi que ficasses, mas não queria que fosses. Não sei se foi por isso, mas tu ficas-te. Ficas-te comigo, ficas-te do meu lado. Mas à medida que os dias iam passando, a força com que pegavas a minha mão, era cada vez menor, e o teu sorriso cada fez mais desfocado. Aí, eu tive a necessidade de te deixar ir, porque a minha intenção nunca foi prender-te a nada que não existisse. O que eu menos queria era prender-te a uma ilusão, e, no fundo, era o que estava a fazer. Talvez fosse egoísmo, mas eu precisava de te ter do meu lado. O importante era ter-te, fosse em quaisquer circunstâncias e condições... Pensava eu. Apesar de nunca ter querido pressionar-te a nada, é claro que sabia bem quando insistias para ficar, quando eu insistia para que fosses. Mas a essência que as coisas tinham, ficaram presas em recordações, perdidas por aí, e hoje não nos resta nada. Estás aqui tu, comigo, mas a pessoa que eu queria, a pessoa que eu conheci e que se transformou na equivalência de importância de ar para mim, desapareceu. O sorriso que tinha uma luz inconfundível, a luz que iluminava o meu dia, a luz que tinha a capacidade de dar brilho e tonalidade até ao sítio mais escuro e fusco, já não existe. A pessoa por quem eu criei um sentimento inigualável, mudou. Por isso, e apesar de toda a dor que isso pode, e me vai causar, eu digo-te para ires, e peço-te que vás. A consideração que tiveste por mim ao arriscar ao ficar, foi destruída pela falta de consideração que tiveste ao pensar que isso me faria bem, mesmo com a consciência de que um dia ia causar ainda mais sofrimento. Usa essa consideração, que eu sei que ainda tens, e vai. Parte. Larga a minha mão, não tenhas piedade porque eu não preciso dela para nada. Não chores, porque eu com isto vou tornar-me forte, e espero que tu também. Mas espera... Antes de ires... Toma. Aí estão todas as recordações. Não pode estar tudo o que fomos porque nem que me dessem o Universo como caixa, isso caberia. Mas está parte da nossa história. Não olhes assim para mim. Eu já te disse que não preciso de pena, e esse olhar está a fazer com que eu me sinta rebaixada... Eu vou ficar bem, não te preocupes. Quando fores, não olhes para trás. Tens alguma coisa a dizer?
Ele: "Desculpa. Desculpa se não fui corajoso e homem o suficiente para deixar que fosses feliz sem mim..."
Ela: Desculpa?! Feliz sem ti? Se eu o conseguisse ser, não terias que ser cobarde este tempo todo.
Ele: Todas as pessoas precisam de sofrer, para serem felizes. E às vezes achamos que as pessoas que nos fazem sofrer, são as pessoas que menos nos merecem. Eu acho o contrário, apesar de ser suspeito. Acho que são essas pessoas, as que mais merecem o nosso respeito, e as que mais acabam por fazer por nós. Tornam-nos fortes para a vida. Fazem com que não tenhamos medo de sofrer, medo do futuro, e de enfrentar seja o que for. Por isso é que te pedi desculpa, porque eu gosto de ti, só que devia ter-me afastado, porque não sabia como fazer-te feliz, por isso é que mudei. Posto isto, devia ter feito parte dessas pessoas que nos preparam para a vida. As tais pessoas que nos fazem sofrer mas que são merecedores do nosso respeito, pois tornam-nos alguém. É por isso que te peço desculpa. Hei-de pedir, todos os dias da minha vida. Mesmo que não seja a ti, directamente.
Ela (olha-o nos olhos com intensidade): Mas tu mudas-te. Mudas-te comigo. Mudas-te para mim. Se nada tivesse mudado, incluindo o teu sentimento, não terias mudado para mim.
Ele: Tens razão. E eu não vou mentir, e dizer-te que o meu sentimento não mudou. Mudou, e mudou em grandes dimensões...
Ela: Então, o que é que ainda estás aqui a fazer?!
Ele: Calma, não sejas precipitada. O meu sentimento mudou porque se tornou muito maior, muito mais forte, e isso intimidou-me. Eu tive medo de não saber gerir este sentimento. Tive medo de deitar tudo a perder, e não saber usufruir dele.
Ela: Não sei o que te diga. Tu sabes que te amo. Faz o que quiseres...
Ele: Ajuda-me.
Ela: Ajudo-te?
Ele: Sim, ajuda-me. Ajuda-me a saber como ficar contigo.
Ela: Eu ajudo-te. Se queres ficar, fica. Simplesmente, fica. Fica, só. Não tens que saber como, nem o porquê.
Ele: Era isso que eu precisava ouvir.
Ela: É isso que eu preciso que faças.
Ele: Sabes o que é que eu vou fazer?
Ela: O que é que vais fazer?
Ele: Beijar-te, e dizer que te amo.
Ela: Sabes o que é que eu vou fazer?
Ele: Tu? O quê?
Ela: Retribuir-te o beijo, e dar-te outro, e dizer que te amo ainda mais.
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